Parte 1
Pouco mais de vinte minutos separam o aeroporto de Casablanca da Estação Central Casa Voyageurs. Aqui apanhei um dos milhares de táxis disponíveis, um Fiat Uno com mais de vinte anos de uso e mais de cinquenta de aspecto. Era disto que eu vinha à procura. Preço negociado paguei recebi troco e vi que estava mal, em vez de 50 dirhams o táxista deu-me 100 Zlotys polacos, "monsieur monsieur" gritei eu e lá estava ele com a nota de 50 na mão, pediu desculpa e sorriu. Não enganei este terá pensado ele.
A chegada a Casablanca mostrou-me uma cidade desinteressante algo que já estava à espera. Fiz o check in no Hôtel Central, um humilde espaço mas com excelente localização e um simpático staff. Situa-se num dos extremos da Medina de Casablanca.
Fiz uma caminhada do hotel até à Mesquita Hassan II, o local é imponente, tem o maior minarete do mundo e é, após Meca, a segunda maior mesquita. A praça ao seu redor alberga 80 mil pessoas. Senti-me o único não-muçulmano presente nas redondezas, tirei umas fotos, sentei-me a observar o mexido mar e saí de lá. Fui em busca do centro da cidade, como não gosto de regressar pelo mesmo local "inventei" outro caminho e meti-me no meio de ruas que não consigo descrever. Em Portugal essas ruas estariam interditas à policia. Continuei a minha marcha sob o olhar dos locais pouco habituados a presença de estranhos. Entrei finalmente na Medina e embora o melhoramento das ruas fosse ténue percebi que ali já não jogava tão fora de casa. Quando os comerciantes começaram a chatear percebi que estava no sitio certo.
Voltei a sair da Medina numa zona mais nova da cidade, caminhei até à Praça Mohammed V, a principal da cidade, continuava a não achar interesse nenhum a Casablanca. Dei mais umas voltas antes e depois do jantar e recolhi ao hotel. No dia seguinte e mais cedo do que previ fui à estação Casa Voyageurs comprei um bilhete para Marraquexe e despedi-me de Casablanca sem saudade de lá voltar. Três horas depois e sem atrasos um comboio até bastante europeu, chegou a Marraquexe. O percurso é muito bonito, vislumbra-se o Atlas que por sinal estava cheio de neve.
Mesquita Hassan II em Casablanca
Parte 2
Os arredores de Marraquexe mostram uma cidade totalmente diferente de Casablanca, se em Casablanca parecia decorrer uma guerra civil, em Marraquexe o ordenamento mesmo nos arredores via-se que existia.
Munido de um mapa facilmente cheguei ao hotel não sem antes ter almoçado numa esplanada a meio caminho. Fiz o check in no Hotel Imperial Holiday e saí em direcção à praça central. O meu hotel fica junto à Praça 16 de Novembro em plena Avenida Mohammed V que liga à Praça Jemaa El Fna. A entrada na Medina em ruas amplas, organizadas e cheias de laranjeiras mostravam uma cidade mais europeia mas com charme africano. As muralhas da Medina fazem jus ao nome pela qual a cidade é conhecida, Cidade Vermelha. Cheguei finalmente à Praça Jemaa El Fna, após passar a Mesquita Koutoubia, e fiquei boquiaberto. Não com a beleza física da praça mas com o seu movimento. Era Domingo, meio da tarde e acho que nunca vi tanta gente concentrada. A Jemaa El Fna é enorme sem formas mas tudo parecia ser possível. Dei umas voltas para conhecer os cantos à casa, leia-se praça e fui beber um sumo de laranja, que são famosos por ali. Encantadores de serpentes, tratadores de macacos, leitoras de sina, tatuadoras de hennas e os souks na parte norte fazem da praça um local sem igual. Cinco vezes ao dia a Mesquita de Koutoubia e um outro minarete na praça fazem o chamamento para a oração. Recordou-me Kuala Lumpur, onde despertava todos os dias com o mesmo chamamento. Dei um salto aos souks, algo que não é um mercado mas sim ruas quase cobertas que se entrelaçam umas nas outras sendo quase impossível um mapa ser necessário. Fui andando sem destino e sem destino voltei à praça, há vários souks nestas milhares de mini lojas, o Souk des Babouches, que são os conhecidos chinelos coloridos de couro, o Souk des Tapis, que vende tapetes, o Souk des Teinturiers, onde por exemplo os famosos lenços dos tuaregs são tingidos, o Souk dos Ferreiros, o dos Madeireiros entre outros. Espantoso o movimento e os milhares de pessoas que por ali passam e vendem. Um chá de menta serviu de aperitivo para o jantar mas antes disso subi ao Café Glacier para da esplanada superior contemplar a praça e o seu movimento. No dia seguinte passei pelo Hotel Mamounia mas era cedo para poder entrar num dos mais charmosos hotéis do mundo. Fui à praça novamente, a Jemaa El Fna é daqueles locais que apetece ir sempre dar os bons dias, é um pouco como a Fonte de Trevi em Roma. Atravessei os souks e fui visitar a Madraça Ben Youssef. A Madraça foi uma escola onde se estudava o Corão, foi erguida em 1565 e tem uma decoração da idade de ouro da arquitectura marroquina. O espaço dava um belo museu do azulejo tal a quantidade e beleza. A Madraça fechou enquanto escola nos anos 60 do século XX, estudavam lá cerca de 900 alunos vindos de países muçulmanos. Estudavam o Corão a fundo e discutiam-no com os sheiks. O bilhete custa 60 dirhams (menos de 6€) e dá acesso além da Madraça ao Museu de Marraquexe e à Koubba El Badiyin. De seguida fui ao Musée de Marrakech, um espaço que vale mais pelo seu edifício do que pelo conteúdo exposto. O pátio central é embelezado com um candelabro gigante de estanho, os azulejos de estilo local abundam, são muitos e bonitos. Aconselho vivamente uma visita. O terceiro local englobado no bilhete é a Kouba el Badiyin. É um espaço em ruína quase total, tem ao centro uma pequena estrutura com uma cúpula, é o último exemplar da arquitectura dos Almorávidas, os fundadores de Marraquexe. Regressei à praça e comi uma pizza no famoso Café de France acompanhada de um chá de menta maravilhoso (mais um). A digestão da pizza foi feita na mais europeia rua de Marraquexe, a Rue de Bab Agnaou que liga a Praça Jemaa El Fna ao Kasbah. Deambulei pelas energéticas ruas e vielas do kasbah, senti recuar alguns séculos. Marraquexe foi sempre uma cidade de mercadores, ponto de encontro de culturas, as carroças puxadas por burros é o meio de transporte local. Este cenário fez-me viajar no tempo. Aproveitando o momento fui ao Túmulo dos Sádidas, local onde estão sepultadas 66 pessoas, o Sultão Ahmed el Mansour e a sua família no interior, os seus servos no exterior. A construção estilo andaluz das várias salas valem a visita. O bilhete custa 10 dirhams (1€). Os túmulos ficam junto à Mesquita do Kasbah que não-muçulmanos estão impedidos de entrar. Fui ao Palácio Badii, uma enorme estrutura que foi na sua altura considerado um dos mais bonitos palácios existentes. Levou 25 anos a ser construído e após um século de sobrevivência quando foi conquistado por outro sultão foi desmontado em 12 anos e levado peça a peça para Meknés. Restam apenas as ruínas, as muralhas são habitadas por cegonhas que fazem de sentinelas neste antigo palácio. 10 Dirhams (1€) foi o preço para entrar no Palácio Badii. Após um jantar numa esplanada na Avenida Mohammed V recolhi ao hotel e fui descansar. Na manhã seguinte fui directo ao Jardim Majorelle que foi criado por Jacques Majorelle abrindo ao público em 1947. Após os tempos áureos o jardim foi abandonado após a morte do seu criador. Em 1980 o estilista francês Yves Saint Laurent adquiriu o jardim e deu-lhe nova vida. Há um memorial em sua honra no jardim. O jardim é muito bonito e vale a pena visitá-lo, há várias espécies exóticas de palmeiras, de cactos e de bambus. Há ainda no interior do jardim um museu de arte islâmica mas estava fechado. O bilhete custa 30 dirhams (3€). De seguida fui ao Hotel Mamounia e agora sim entrei e visitei o exterior nomeadamente os jardins. É um hotel de charme, fora não me apercebi dos créditos que tem. A suite Winston Churchill e o tecto Majorelle são as grandes atracções do Mamounia. De regresso à praça fui pelos Jardins da Mesquita de Koutoubia, impressiona pelo tamanho. Por ali está o túmulo de Yousef Ben Tachfine, o fundador de Marraquexe. Pela praça fiquei umas horas a observar entre outras coisas, os encantadores de serpentes. Incrível como se movimentam a escassos 10 cms de Cobras Capelo e de Cascavéis. O jantar foi no Mercado Nocturno em plena Jemaa El Fna, comecei por uns caracóis em molho picante, que na verdade são caracoletas e o molho não é assim tão picante. Não sou grande apreciador de caracóis mas em Roma sê Romano. Após o aperitivo fui jantar numa das tendas e pedi uma Tajine de Frango, é um frango estufado em terrina de barro acompanhado de abóbora. Gostei muito do jantar e despedi-me da praça, voltei para o hotel porque no dia seguinte era dia de regresso.
Um táxi levou-me da zona do hotel ao aeroporto, passei pelos famosos Jardins de Menara que não tive oportunidade de conhecer. Adorei Marraquexe, é para voltar sempre.
Voltei pela Easyjet com saída de Marraquexe para Madrid, uma espera de umas horas em Barajas e depois para Lisboa.
Praça Jemaa El Fna
9 comentários:
Gostamos muito de ler a tua crónica da viagem a Marrocos. Um registo que devias explorar mais aqui nas Viagens Lacoste.
Abraços
Com este relato, mereces um prémio. Quem sabe uma nova ida a Marraquexe daqui a uns tempos e mais uns concertos 360º:)))
Adorei.
É a prova que se mudares de vida, tens futuro.
Ao mesmo tempo este post é um desafio para quem gosta de viajar.
E a máscara fica-te lindamente. Pobre do árabe que não fez negócio.)
Obrigado Vagamundos! Ando a tentar relatar algumas viagens mais antigas que fiz. Vou falar um dia destes sobre 18 dias na costa leste americana com o Vítor a "consumirmos" U2 :)
Obrigado Lena, bem gostava de fazer mais umas "viagenszitas" lol.
Força nisso. Já ouvimos muito falar dessa viagem na costa leste americana :)
Abraço
Caro Raúl,
Ainda bem que gostou de Marrocos. Já trocámos ideias sobre o assunto. Siga-as quando regressar...
Abraço,
Alexadre Correia
De certeza que o farei Alexandre, não quero esperar muito tempo para voltar a Marrocos. Tentarei passar por Fez, Chefchaouen, Agadir, Essaouira e claro regressar a Marraquexe.
1 abraço
Hugo
Excelente texto. Fez-nos "tar" lá. Quanto à crónica americana, fico à espera ansiosamente. Ainda há dias estive a reler a minha :).
Vai sair Vítor, tenho tudo tão presente ainda que parece que não foi há 4 anos e quase meio.
Enviar um comentário